terça-feira, 13 de março de 2012

O Cerco, a escola

 

O cerco foi a minha escola, a primária, depois o ciclo e no fim a secundária.
Não morei no bairro, fiquei à distância de um atravessar de rua, o que vai dar exactamente ao mesmo. Não é o bairro que faz as pessoas!
 Há casas felizes no bairro, há outras menos felizes e há algumas que não chegam a ser casas, são só paredes e tecto. Nestas não falta só dinheiro, falta tudo! Muitos dos miúdos que moravam nestas casas que não são casas andavam comigo na escola. Muitos dos miúdos que andaram comigo na escola só eram miúdos na escola, porque o que estava para lá dos portões era tão mau...
Foi na escola que nos ensinaram a ser melhores, que nos transmitiram valores, que nos deram ferramentas e nos impulsionaram. Foi na escola que nos disseram que sim, que a faculdade também era para nós, que os cursos profissionais também eram para nós, que ganhar dinheiro a trabalhar honestamente poderia ser o nosso rumo.
Foi na escola que sentimos carinho, que sentimos que alguém se preocupava com o que vinha depois, com o que vinha depois das aulas e com o que vinha depois da escola.
Era a escola que nos dava desporto escolar depois das aulas terminarem, para que não ficássemos na rua à espera de pais que nunca mais chegavam (os magníficos saraus de acrobática do professor Sérgio, os treinos de escalada do professor João, os trampolins, o andebol, o basquetebol e tantos outros), o clube de fotografia que nos permitia olhar o mundo de outra maneira, o grupo de teatro, o de dança, o de poesia... tanto que nos deu aquela escola! Tanto que nos fez crescer, tanto que nos fez acreditar.
Alguém que faz com que um miúdo, que vive numa casa que não é uma casa, acredite que pode ter um futuro brilhante à sua frente, faz muito mais do que qualquer escola tem que fazer. O cerco fez!
Muitos dos miúdos daquelas casas que não são casas, que andaram comigo na escola, no cerco, continuam a andar comigo na vida, são pessoas bem formadas, que trabalham, que constituíram família e que vivem hoje aquilo que com 10 anos nem ousavam sonhar!
O cerco muda vidas!
Às pessoas que o Cerco tem dentro estarei eternamente grata pelo que hoje sou, muito passou por eles.
Aos que agora querem ir a Itália, e sabendo a diferença que essa esperança pode fazer na vida de tantos, é claro que vão conseguir e conseguirão muito mais que isso, tudo depende de nós!
E respondendo a este  apelo da Sónia, sexta-feira lá estarei a ouvir Blind Zero, na minha escola!

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